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Se me perguntarem de supetão os elementos biográficos que mais contribuíram para a minha formação intelectual, eu diria que o primeiro de todos foi o incentivo dos meus pais. Eles me bombardearam de livros e me fizeram acreditar que o conhecimento era algo muito importante.Meus pais nunca estimularam o consumismo, o materialismo ou o individualismo. Essa dimensão individual, que traz um conforto importante, poderia sempre ser atingida por meio de algo que me fizesse realmente feliz e trouxesse algo de bom para a sociedade, insistia a minha mãe. Contudo, eles nunca me deram muitas respostas ou ditaram os caminhos exatos que eu deveria percorrer.

Acho que isso me fez um pouco mais idealista do que a média dos meus amigos. Hoje consigo perceber que o relativo conforto material de uma família de classe média (encabeçada por dois servidores públicos) também contribui para a possibilidade de eu dedicar grande parte da minha vida à tentativa de entender a minha própria existência e o mundo, principalmente por meio da leitura e do estudo como algo não pragmático, sem o objetivo de um retorno específico imediato. Acho que esse foi o vício ou a virtude de origem. Não sei ainda.

Meu pai dizia que eu deveria estudar filosofia antes de escolher o que eu iria fazer o resto da vida. A ideia era abrir a cabeça. Acabei estudando alguns semestres do curso ao longo da minha formação em direito. Acho que isso também me fez dar bastante atenção às disciplinas iniciais do curso de direito, que são aquelas mais reflexivas, mais abertas para outras áreas do saber. Isso me diferenciou um pouco dos meus colegas, que, em geral, não tinham muito interesse nessas disciplinas que eu gostava.

Isso também me fez vagar por atividades de ensino, pesquisa, extensão, política estudantil, estágios em diferentes áreas, sempre tentando me encontrar, entender o meu contexto de uma forma mais ampla, enfim, abrir a cabeça.

Como muitos que também tentaram esse caminho, eu sempre tive um sentimento de insucesso muito grande. A verdade, a certeza, a ordem etc. sempre pareciam escapar à medida que eu avançava. Isso aconteceu ao me graduar em direito, ao fazer mestrado em filosofia do direito, e agora acontece o mesmo na reta final do meu doutoramento em sociologia do direito.

Sair de Salvador, ir para São Paulo, ir para a Alemanha, voltar para São Paulo, ir novamente para a Alemanha, retornar novamente para São Paulo, e tudo que isso envolveu, foram processos que, ao lado de muito estudo, ampliaram o campo das coisas que eu quero aprender. Por um lado, hoje eu tenho ainda mais curiosidade e dúvida sobre muitos assuntos. Por outro lado, acho que acabei desenvolvendo algumas competências que me ajudam a me localizar um pouco melhor nessa confusão que é a vida.

Muitos aspectos poderiam ser destacados como relevantes neste breve relato pessoal, mas quero ressaltar a prática da advocacia. Acho que essa experiência principalmente durante o  período em que fiz o mestrado me deu uma dimensão importante do mundo real fora dos muros da academia. Isso me ajudou muito a colocar os pés no chão, a saber que a atividade de pesquisa deve ser em certo sentido autônoma, mas não alienada em relação à prática.

Outro aspecto importante foi ter conseguido me dedicar integralmente à pesquisa durante o doutorado, pleiteando e recebendo algumas bolsas que permitiram inclusive períodos de pesquisa na Alemanha. Isso foi muito enriquecedor para a minha formação. Tive vivências ao longo dos últimos 3 anos que mudaram muito a minha forma de perceber a nossa sociedade. Saí muitas vezes da minha zona de conforto, testando, errando, acertando, enfim, tentando sempre chegar ao meu melhor, desenvolver o meu potencial.

Deste modo, não tenho um filme ou um livro que tenha sido especificamente importante para a minha formação, mas, sim, uma série de acontecimentos, circunstâncias e escolhas que me fizeram seguir adiante, sempre insatisfeito. Isso me trouxe ao ponto em que me encontro, tentando entender a sociedade, a política, o direito, a economia, a ciência, a educação e, em alguma medida, o meu próprio papel nisso tudo. O caminho, portanto, ainda é muito longo…
Gabriel Ferreira da Fonseca
Doutorando na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com período sanduíche na Faculdade de Sociologia da Universidade de Bielefeld. Mestre em Filosofia do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia.