Paula Deorsola Nogueira PintoEm que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

O momento dessa escolha foi quase o mesmo da escolha pela Faculdade de Direito. Claro que nessa época eu sabia muito pouco sobre as carreiras, cujos detalhes fui descobrindo ao longo do curso. Apesar de admirar muito a advocacia, nunca pensei em exercê-la. Inegavelmente fui influenciada pelo meu pai, sempre preocupado com a estabilidade profissional das filhas, já que o universo privado pode ser bastante imprevisível. Assim, durante a graduação, mesmo sem conhecer com profundidade as diferentes áreas de atuação jurídica, eu já estava inclinada à carreira pública.

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?
Como desde o início da faculdade eu tinha em mente que, ao término, iria tentar a carreira pública, durante o curso inteiro procurei focar bastante nos estudos, já conhecedora da dificuldade das provas. Eu conversava com todos os professores que exerciam cargo público buscando orientações. Mas não passei pelo curso de Direito pensando só nisso. Curti muito a faculdade, os amigos, as festas, mas procurava não perder o foco. Eu sempre pensava que na prova iriam me cobrar tanto aquilo que aprendi no primeiro mês do curso, como no último. Ao longo do tempo, fui experimentando vários formatos de estudo, preservando sempre uma rigorosa disciplina, com horários específicos e organizados por matérias.
Quanto tempo demorou para ser aprovada no primeiro concurso?
Assim que me formei, no final de 2008, matriculei-me num curso preparatório, que fiz ao longo de 2009. Em 2010 estudei sozinha, em casa e, no meio deste ano, prestei o concurso para o cargo de Analista do Ministério Público do Estado de São Paulo e passei. Comecei a trabalhar no início de 2011, mas não quis parar por aí. Continuei estudando e no final de 2013 fui aprovada no cargo de Promotor de Justiça da mesma instituição.
O Ministério Público sempre foi seu foco principal?
No terceiro ano da faculdade fiz estágio no Escritório Modelo “Dom Paulo Evaristo Arns”, vinculado à PUC-SP, onde me formei. O Escritório Modelo faz um trabalho semelhante ao da Defensoria Pública, mediante convênio firmado com essa instituição. Eu simplesmente adorei. Tinha decidido: queria ser defensora pública. No quarto ano da faculdade, fiz estágio no Ministério Público Federal e as coisas começaram a mudar. Mas foi quando ingressei como analista no Ministério Público Estadual que eu descobri minha paixão. Minha vocação era ser Promotora de Justiça. No cargo de analista passei pelas áreas da violência doméstica e da infância e juventude, nas quais o Promotor de Justiça possui papel ativo e fundamental, verdadeiro transformador da vida das pessoas. Isso me encantou de tal forma que eu já não podia pensar em fazer outra coisa.
A senhora sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?
Da família e amigos, não. Mas acho que quem não passa diretamente por isso pode não entender os sacrifícios e a dificuldade em lidar com as frustrações que surgem. Mesmo assim, fui muito apoiada na minha decisão. A maior cobrança partia de mim. Depois de formada, passei dois anos sem trabalhar, dedicada aos estudos. Não saber quanto duraria essa fase algumas vezes causa angústia e desânimo. Mas esses sentimentos eram passageiros. Lembro-me de um professor do cursinho que dizia “a cada reprovação você tem 24 horas para chorar, porque no dia seguinte tem que levantar cedo para estudar”.
Depois de aprovada, como foi sua rotina de Promotora de Justiça recém empossada?
Primeiramente passei pelo curso de formação na Escola Superior do Ministério Público, que tem duração de 30 dias, com palestras e orientações. Esse é um momento mágico. Ao lado dos novos colegas, que aos poucos vão se tornando amigos, pude dividir os medos e as inseguranças de assumir o cargo. A responsabilidade que passamos a ter sempre nos é lembrada dentro da instituição. Minha primeira designação foi para Presidente Prudente, cidade a 550km de São Paulo, e desconhecida para mim. A cada dia eram novos acontecimentos e eu procurava ficar alerta, sabendo que tudo poderia acontecer, um atendimento inesperado, um caso urgente na mesa. Durante os primeiros três meses, ao final de cada dia, eu pensava: “O dia de hoje terminou, e acho que correu tudo bem”. E mais uma vez a ajuda de colegas mais experientes foi fundamental. Em Presidente Prudente, por se tratar de entrância final, os Promotores que lá atuam possuem anos de carreira. Eu passei cinco meses observando e aprendendo. Estou na carreira há pouco mais de seis meses e a insegurança inicial já foi superada. 
Quais são as atividades que uma Promotora de Justiça exerce? Como é a rotina profissional?
Hoje o Ministério Público atua em áreas das mais diversas. Em poucos meses de carreira eu já passei pelas áreas da infância e juventude, meio ambiente, urbanismo, criminal, família e violência doméstica. O leque de atribuições é imenso. Tradicionalmente a atuação é processual, ou seja, lidar com os processos judiciais. Porém, essa realidade está mudando e eu estou vivenciando isso. Não se espera mais que o Promotor de Justiça fique sentado na cadeira de seu gabinete o dia inteiro se manifestando em processos. Existe uma atuação extrajudicial que vem crescendo, juntamente com a importância dos direitos coletivos, o que faz o cargo se revestir de mais desafios.
Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?
No início da carreira a teoria está fresca na cabeça, mas somos quase analfabetos quanto à prática. Então, sobretudo nas audiências, o risco de não cumprir os rituais é grande, como, por exemplo, falar no momento equivocado, ou ficar muda quando devemos intervir, gaguejar um pouco…. Já duas vezes, o advogado de defesa perguntou a minha idade no meio da audiência, o que me deixou bastante sem jeito.
E o mais triste?
Houve uma situação que nunca vou esquecer. Foi a primeira audiência da qual participei. Tratava-se de uma audiência de instrução e julgamento de ato infracional. O adolescente tinha tentado roubar o celular de uma pessoa e portava uma arma de brinquedo. Ao ler o estudo psicossocial elaborado, ficou patente que o garoto não fazia parte do universo da criminalidade e aquilo tinha sido um deslize na vida dele. No entanto, por se tratar de caso grave, com violência, o juiz determinou que ele fosse internado na Fundação CASA. Ao final, após ler a sentença, o garoto, algemado, perguntou ao juiz se poderia dar um abraço na mãe ali mesmo. O juiz, sensível, autorizou. Os dois se abraçaram e choraram muito. Eu permaneci sentada e fiquei bastante comovida. Tentei disfarçar; não sei se consegui.
O que mais gosta na Instituição?
A identificação que tive com o Ministério Público foi imediata, exatamente porque se trata de uma instituição que possui vocação e instrumentos para a mudança. Durante a escolinha, ouvimos muito que o Promotor de Justiça é um agente de transformação social. E isso faz parte dessa nova visão de atuação. Certo dia do curso assistimos a uma palestra de um Promotor aposentado que trabalhou na época da Ditadura Militar. Sem entrar no mérito, ele disse algo que me encheu de orgulho. Disse que se não fossem a imprensa e o Ministério Público, o Brasil teria permanecido sob a repressão e o desrespeito aos direitos humanos por muito mais tempo. 
O que gostaria de mudar na Instituição?
Eu sou nova na carreira, ainda tenho muito que aprender a respeito da instituição. Fico admirada com o alto nível de contribuição do MP à sociedade ao longo de décadas. De todo modo, gosto e acredito muito na ideia de um modelo de Ministério Público mais ativo das portas dos gabinetes para fora; acredito que ela ainda não chegou no seu potencial máximo. Essa é a visão de Ministério Público que nos foi passada ao ingressarmos na carreira e que ainda está em processo de consolidação e aperfeiçoamento. Quero poder contribuir para isso.